No dia 2 de abril eu finalmenteee assisti Mickey 17, lá no Cinemark, depois de um bom tempo desde sua estreia oficial. Confesso que fui movida por uma curiosidade dupla: queria muito ver Robert Pattinson nesse papel e estava especialmente intrigada pela direção de Bong Joon Ho, que assina o filme. As opiniões que ouvi antes da sessão estavam bem divididas — algumas pessoas se divertiram horrores, outras acharam o filme simplesmente “nada a ver”. E com uma nota que gira em torno dos 70% no Rotten Tomatoes, fui ao cinema tentando manter as expectativas no lugar.
Bong Joon Ho entre a política e a loucura
Dirigido por Bong Joon Ho (Parasita, Expresso do Amanhã), Mickey 17 adapta o romance de Edward Ashton e mergulha em uma distopia sci-fi com toques de humor, existencialismo e crítica política. A história acompanha Mickey Barnes (interpretado por Robert Pattinson), um “descartável” — termo usado para designar clones humanos enviados às missões mais perigosas em um planeta recém-colonizado pela humanidade. Se ele morre em uma missão, é só imprimir outro. Porém, a regra é que um novo Mickey só deve ser impresso quando o anterior já morreu. Problemas com este contexto trazem um conflito que envolve questões éticas e confusões entre os tripulantes.
Confesso que meu único contato anterior com o trabalho de Bong Joon Ho foi Parasita, então não posso dizer que já conheço a fundo seu estilo. Ainda assim, percebi como ele sabe conduzir uma narrativa de forma magnética — fiquei presa desde o início, assim como havia acontecido com Parasita.
Ritmo ágil, visuais costumeiros e atuações que se destacam
A fotografia é bonita, mas não achei nada muito inovador. Está dentro do esperado para uma ficção científica: tons frios, construções tecnológicas, ambientes futuristas que lembram outros filmes do gênero. Ainda assim, funciona bem para criar a ambientação.
Já o ritmo da narrativa foi um acerto. A narração feita pelo próprio Mickey 17 ajuda a costurar as cenas e facilitar a compreensão de um universo que, por si só, já tem suas complexidades. O filme tem 2h17, mas passou num piscar de olhos. Nada cansativo.
A trilha sonora, por outro lado, não me marcou. Sinceramente, nem lembro dela após sair do cinema.
Em relação ao elenco, destaco dois nomes: Robert Pattinson entrega um protagonista instável, sarcástico e um tanto confuso (o que combina com a proposta do personagem), e Mark Ruffalo está absolutamente brilhante como o líder narcisista e totalitário da missão. Divertidíssimo, exagerado na medida certa — embora eu ache que a dublagem brasileira tenha atrapalhado um pouco nesse ponto. Algumas nuances da atuação ficaram soterradas por vozes caricatas demais, o que me deixou com vontade de rever o filme no áudio original.
Distopia, ego político e identidade: um futuro nem tão distante
Mickey 17 é uma ficção científica que se diverte ao brincar com outras ficções já conhecidas. Lembrei bastante de Altered Carbon, da Netflix, e até da série Ruptura, da Apple TV, pelas reflexões sobre identidade e a existência de múltiplas versões de uma mesma pessoa. No fim das contas, o que nos faz sermos nós mesmos? Qual parte realmente compõe a nossa essência?
Além disso, o filme traz discussões políticas muito claras. O personagem de Mark Ruffalo, por exemplo, encarna aquele tipo de líder autoritário, carismático e totalmente despreparado — alguém que pensa mais na própria imagem e em inflar o seu ego do que em cuidar da população. Alguns elementos visuais, como o uso do vermelho por seus seguidores, evocam diretamente o partido republicano dos EUA, reforçando essa crítica à idolatria política e à mediocridade travestida de autoridade do governo americano atual.
Colonização e humanidade levada ao limite
Outro ponto interessante foi a abordagem da colonização. O modo como os humanos interagem com os seres nativos do planeta, a ideia de explorar recursos e impor domínios mesmo sendo minoria numérica — tudo isso remete aos processos históricos de dominação colonial. Há um elemento específico que me fez pensar sobre as antigas buscas por especiarias... e quem assistir vai entender a referência presente ali. Mesmo sendo um filme “maluquinho”, Mickey 17 consegue provocar reflexões reais sobre o comportamento humano frente à prática exploratória.
Entretenimento com um quê de crítica
Saí do cinema satisfeita. Mickey 17 não é uma obra-prima nem um filme memorável, mas é um ótimo entretenimento. Me diverti, ri, fiquei curiosa e até fiz umas reflexões no meio do caminho. É um daqueles filmes que flerta com o absurdo e, ainda assim, acerta no equilíbrio entre crítica e leveza.
Para quem curte distopias, questionamentos sobre identidade e crítica política envolvida numa história sci-fi, vale a ida ao cinema. E se possível, veja legendado — acho que a experiência se torna bem melhor.
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